Hoje, sexta-feira, estou concluindo uma semana que me foi deveras especial. Na quarta-feira foi o Dia do Professor e também nesta data comemorei mais um natalício. 41 anos bem vividos, com muita aprendizagem e experiências acumuladas. Não tenho do que reclamar; aliás, só posso e devo agradecer, pois a vida tem me proporcionado cada dia novas possibilidades. E isso é dádiva e bênção.
Não por acaso, dizem muitos (e eu também acredito) nasci no Dia do Professor. O ano era 1973. Tempos difíceis. Anos de chumbo da ditadura. Era uma segunda-feira. Minha mãe costumava preparar o bolo para a festa dos professores. Naquele tempo, a escola funcionava no Dia do Professor para que os alunos, funcionários e os próprios professores pudessem festejar o Dia do Mestre. Áureos tempos. Dona Neuza varou a noite assando o bolo. No dia seguinte, só teve tempo de deixá-lo na escola e rumar para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, à época um hospital de verdade. Assim, o Planeta me acolheu. Portanto, sou um professor que nasceu no Dia do Professor e quase foi parido numa escola...
Para além dessas especulações de destino, karma, ou seja lá o nome que queiram dar, o fato é que eu sou um apaixonado pelo que faço. Um privilegiado. E teimoso. Teimoso porque não desisto de acreditar e investir minhas forças e empenho em uma educação de qualidade, mesmo quando as adversidades são tremendas. Fiz, assim, da Língua Portuguesa e da Literatura o meu mundo interior e é a partir desse feixe de leituras e releituras que teço a história de minha vida. Nada foi fácil até agora e nunca me iludi que seria. Fiz meu Curso de Letras numa Universidade Federal e só eu e Deus sabemos a que preço. Tudo difícil. A faculdade era pública, mas tinha a passagem, caríssima, da Baixada a Niterói, além das muitas cópias, dinheiro do bandejão e várias outras despesas. Foram quatro anos de muitas aprendizagens, não só acadêmicas, mas para a grande saga da vida.
Tornei-me um professor consciente. Incomodo-me com o discurso do "professor sofredor". Sofredor por quê? Sofredor eu era quando não era professor e ganhava pouco mais de um salário mínimo numa empresa de marketing em São Cristóvão. O magistério me possibilitou acessos inimagináveis por mim antes de abraçar a profissão. Eu era paupérrimo. Não sou um sofredor. Sei que ainda temos muito a conquistar, que merecemos ganhar mais do que ganhamos, mas sofredores? Não, não somos! Um professor, hoje, só ganha muito mal se não se qualificar, se ficar restrito a uma matrícula no Estado, por exemplo. Se for um profissional sério, bom, pesquisador, com certeza não lhe faltarão oportunidades. E acho que essa é a grande crise que envolve nossa profissão.
O professor precisa ler, estudar, conduzir seu trabalho com disciplina e método. O professor precisa, antes de tudo, resgatar a sua autoestima, acreditar no seu potencial. Precisa se expor, no sentido de mostrar suas qualidades. Não pode tornar-se refém de pais permissivos ou gestões incompetentes. Deve questionar, argumentar, saber posicionar-se. O professor precisa reconhecer seu papel vital na construção de seres humanos mais lúcidos, mais críticos.
Eu não entrei para o Magistério por falta de opção. Não cursei Letras porque não consegui vaga para Direito, por exemplo. Nada disso! Eu sempre quis ser professor, desde antes de frequentar a escola... Segundo meus irmãos mais velhos, até nas brincadeiras isso ficava evidenciado. Eu sou professor, porque acredito que o ser humano pode, via conhecimento, conquistar seu espaço no mundo e quero contribuir para que essas pessoas logrem tal acesso. Eu acredito que é preciso conhecer o chão onde se pisa para transformá-lo, não se tornando vítima dos demagogos discursos cristalizados que estão aí a seduzir os incautos. E o meu trabalho como professor pode ser fundamental para que aquele que me ouve, talvez timidamente no canto da sala, entenda que é protagonista de sua história, sujeito de seu tempo e destino, e que tem nas mãos um tremendo poder de transformação.
Eu sou um professor!
Roberto Machado, mais experiente. E lúcido.
Saúde, paz e equilíbrio!

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