Religião é uma palavra do latim, que significa re-ligare, que significa “ligar com”, “ligar novamente”, restabelecer a ligação entre o homem e
Deus, entre criador e criatura. Mas por que o homem precisa
restabelecer essa ligação? Se dissermos que precisa restabelecer é porque, em
algum momento, esse elo foi perdido. Mas foi mesmo? Como? Histórica e
culturamente, o homem sempre procurou estabelecer algum contato com a divindade.
Desde que se entende por pessoa, o ser humano sente a necessidade do eterno.
Nossa natureza é essa. E desconfio de que até alguns ateus buscam na Filosofia,
na Antropologia, na Sociologia ou na História as mesmas respostas que a maioria
dos mortais busca nas religiões.
O
questionamento que ora apresento é sobre a necessidade de que haja religiões
diversas, com cultos distintos, para que o homem sacie essa sua necessidade do
sagrado. Não podemos negar o fato de que todas as religiões falharam no
curso da História. Todas se equivocaram, principalmente as monoteístas:
Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Os fatos provam isso. Mas não teremos
espaço aqui para enumerar os muitos desvarios que tais religiões promoveram (e
promovem) no curso do tempo. Não. Por outro lado, não podemos nos esquecer,
também, de que ao passo que erraram, as religiões, em muitas situações,
ofereceram alguma referência para a sociedade, seja do ponto de vista
pedagógico ou espiritual. Francisco de Assis é um desses exemplos. Em plena
Idade Média, com a Igreja Católica corrompida e mergulhada em tremendos
escândalos, muito distante, pois, da proposta inicial do Mestre, o poverello de
Assis deixou um exemplo de fé e simplicidade, envergonhando a hierarquia eclesiástica
pelo seu testemunho cristão. Há outros exemplos. Mas Francisco de Assis é
suficiente.
Tenho
a impressão de que essa busca do homem pelo sagrado é, em essência, a busca do
homem por si. Explico-me: mesmo que não tenha exata clareza acerca disso, o ser
humano sente a necessidade de descobrir-se, entender-se, aceitar-se, saber quem
é e do que realmente precisa. Esse conhecimento só é possível através de um
mergulho interior, de um autoconfrontamento e creio que, poucos, pouquíssimos
homens sentem-se à vontade para fazê-lo. Não é fácil confrontar-se com as
próprias mazelas. Então, há uma tendência a buscar nas religiões respostas
prontas para questões que somente o homem, o próprio homem, poderá deslindar. Fica
fácil colocar a responsabilidade no discurso do padre, do pastor, do rabino, do
pai (ou mãe) de santo, do xamã, do guru, do médium, enfim, do líder da religião
a qual pertence. Um número significativo de homens ainda precisa dessas
lideranças, de seus discursos. Então, para essas pessoas, as religiões são
muito necessárias e importantes. Ainda não despertaram para as realidades
maiores que somente a consciência lúcida propicia. Esse despertar da
consciência é um processo lento, muito pessoal e variável. Mas, uma vez
desperta, a consciência nunca mais será a mesma, porque levará o ser a uma
viagem interior, ao conhecimento da própria realidade de ser homem.
À
medida que o homem se conhece, torna-se mais humano e menos dependente das
religiões, das imposições, dos dogmas. Liberta-se, enfim. Aprende a pensar por
si, a questionar com inteligência, entende que não pode pôr nas mãos de Deus ou
de santos ou orixás e guias a responsabilidade pela própria evolução que
pertence tão somente a si. Compreende que os discursos religiosos podem ser
belíssimos, elevadíssimos, mas serão nada, se não o mobilizarem a um
desinstalar-se constante, a uma mudança de padrões, de pensamentos e atitudes.
Para quem busca o autoconhecimento, para quem pretende, verdadeiramente,
conhecer-se, não há a necessidade das religiões. Elas até podem ajudar, mas não
são condição para que o processo se dê. O mesmo não posso não dizer quanto a um
exame verdadeiro da consciência, à meditação – técnicas essenciais para aquele
que busca a verdade sobre si, a fim de melhorar-se para, a partir daí, ser um
instrumento de transmutação das estruturas carcomidas que lhe cerceiam, ainda, o domínio
da vida.
Roberto Machado
Paz, saúde e equilíbrio!




