A formação da sociedade ocidental, sob todos os aspectos, é, sem dúvida, uma herança da cultura grega. A noção de cidade, a busca pelas grandes questões metafísicas, o teatro, os jogos olimpícos, nossa relação com o sagrado e até nossa gramática apresentam traços da cultura grega. Tive uma professora na graduação que sempre nos dizia que "depois dos gregos, tudo é imitação". Vários estudiosos sinalizam que foi o surgimento da pólis, as Cidades-Estado, uma das mais importantes experiências desenvolvidas em toda a Antiguidade.
Pólis. Foi esse radical grego o elemento linguístico que, associado a um sufixo, tornou-se o responsável pela formação da palavra política (politiké). E o que é a política? Do ponto de vista etimológico, política significa, essencialmente, cuidar da pólis. Claro que a palavra percorreu, ao longo dos séculos, seu próprio caminho e que, hoje, pode ser ampliada, mas o que vamos encontrar são apenas sinônimos para o que está consagrado como o zelar, cuidar e bem administrar a cidade (pólis).
O Brasil vive um momento histórico. Arrisco dizer (parafraseando alguém) que nunca vivemos na história deste país um pleito eleitoral tão dramático. Dramático porque tudo pode acontecer e surpresas - agradáveis ou não - poderão advir. As pesquisas oscilam e as diferenças matemáticas entre os presidenciáveis e candidatos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro são muito reduzidas. Mas o que podemos esperar deste momento?
Pessoalmente, nunca tive tantas dúvidas quanto à política nacional como neste momento. Nossos candidatos, ambos, têm passado sujo e não recomendável. Faltam-nos opções. Falta ao brasileiro um candidato que realmente expresse nossas insatisfações e desejo de mudança. E o que temos? Uma presidente tentando a reeleição, dizendo que fará muitas coisas que, sinceramente, já teve oportunidade de fazer e não fez. Temos um partido que está no poder há 12 anos e que, há muito, tornou-se incoerente com o discurso que o legitimou e que deu vez ao mito do operário que chega ao poder. O PT já não é o Partido dos Trabalhadores. Envolvido até a alma num esquema de corrupção e outros crimes, tornou-se vergonha nacional.
Por outro lado, temos um candidato que governou Minas Gerais com mãos de ferro e que é odiado pelo funcionalismo público mineiro. Um homem cuja formação política é de linha conservadora, neoliberal e excludente, que favorece as elites e torna o pobre mais pobre, dificultando-lhe o acesso a bens culturais e materiais. Aécio Neves é discípulo fiel de Fernando Henrique Cardoso, e quem tem memória sabe como foram difíceis, para os pobres, os oito anos dos tucanos no poder. Estudei em universidade federal e, naquele período, vivi momentos inomináveis na faculdade, como corte de energia, por falta de pagamento e até mesmo carência de papel higiênico no banheiro. A conversa sobre privatização era comum. E o que é, pois, Aécio: mudança ou retrocesso?
E é exatamente isso que temos como opções: a continuidade de um governo marcado por crimes de corrupção e projetos inacabados ou um retrocesso histórico, que poderá comprometer seriamente a vida de muita gente. A crise econômica está às portas. Com ou sem PT, os economistas (da FGV) asseguram que o Plano Real está moribundo e que precisa de urgente reestruturação. A sujeira grassa em ambos os partidos. Em quem votar? Essa é a questão.
No Estado do Rio de Janeiro, a situação é mais complexa: por um lado, a continuidade de um governo marcado por greves e escândalos terríveis; por outro, uma perigosa combinação de política com religião que me assusta. Ou há quem ainda pense que o fundamentalismo religioso está restrito às loucuras do Estado Islâmico?
Estamos entre a cruz e a espada. Por isso, o momento é dramático. Acrescentando-se a isso, temos os casos bizarros de cantores, comediantes, filhos e netos de velhos figurões políticos, partidários de extrema direita e até participantes de Reality shows candidatando-se a serem nossos representantes. E o pior: muitos ganham.
E a essência da politiké? E o cuidar da pólis? Neste caso, a etimologia nos traiu. Que triste! Os gregos sabiam de tudo. E a nossa política virou um triste circo de horrores. Não sou otimista.
Saúde, paz e equilíbrio!
Roberto Machado

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